quinta-feira, maio 29, 2008
A motivação
Talvez faça mal em falar de um caso particular, como é o meu exemplo. Talvez nem tenha nada de interessante a adicionar a este assunto. Mas por alguma razão, a mesma que me compele a querer apresentar esta minha opinião, acho mesmo que tenho de o fazer para trazer alguma informação que penso que até pode ser útil a quem ainda não se licenciou.
Licenciei-me da FFUL à quase um ano. Lembro-me de ter entrado no estágio a pensar "bom, agora vou tentar perceber o que é que quero mesmo fazer". É a coisa boa de termos de fazer estágio em farmácia comunitária e em farmácia hospitalar. Apesar do pouco tempo que temos para aprender e habituarmo-nos a tudo, penso que é tempo suficiente para fazermos uma ideia se gostamos ou não dessas opções. Depois do estágio, tive a oportunidade de sair de Portugal e ir "brincar" às investigações científicas com um grupo bem sério e bem respeitado do meio científico inglês. Foi lá que cheguei finalmente à conclusão de que aquele tipo de vida seria o mais interessante para mim. Relacionei tudo o que passei nesses meses com tudo o que vivi antes de escolher o meu curso, tudo o que aprendi nas diversas aulas durante o curso e quando já mais para o final fiz os 2 projectos [em fitoquímica]. Cheguei à conclusão que sou uma felizarda.
Eu escolhi Ciências Farmacêuticas na FFUL, como 1ª opção, num papel de candidatura que tinha outras 5 opções completamente diferentes. [por ex, engª agronómica, pois suspirava pela inovação na ciência de produção agrícola; ou química aplicada, pois sempre sonhei com síntese química; ou ainda engª electrotécnica, pois acreditava que conseguiria ser das engªs mais aliciantes em termos de futuro profissional]. Mas a razão pela qual pus CF 1º foi porque meti na cabeça que iria sempre para a indústria, criar novas respostas a problemas emergentes em termos científicos, em termos de investigação e desenvolvimento de novos fármacos.
Desiludi-me a meio do curso, pois descobri que isso era uma actividade pouco promovida no nosso país. Durante uns anos meti na cabeça que iria conseguir fazê-lo. Lembro-me quando entrei na Lusomedicamenta, SA, num curto estágio em 2006, e nos papéis das formulações de medicamentos nos dossiers dos produtos que essa empresa fabrica, vi as assinaturas dos "senior scientists" que confirmavam as formulações criadas. Pensei logo que era isso que seria o conceito de indústria para mim. Neste sentido, foi com agrado que vivi esses meses em Bath, todos os dias a meter na cabeça que vou conseguir ter um papel preponderante na ciência farmacêutica.
Reparei em duas coisas importantes: 1º a minha motivação realmente existe desde o primeiro momento em que me inscrevi na FFUL, e foi também por isso que me propus sempre em projecto [onde tive o maior prazer de trabalhar numa área como a fitoquímica, e de trabalhar com a Professora Maria José Umbelino e, na altura, a sua doutoranda]; 2º o curso na FFUL deu-me uma bagagem enorme, tanto em prática laboratorial como em teoria, para que eu possa pegar nisso tudo que aprendi e levar comigo para onde quer que queira trabalhar. [Embora eu ainda tenha tido até ao final do 5º ano o plano curricular estabelecido em 1989, já usufrui da conclusão do curso como Mestrado Integrado].
Isto são duas sensações que eu ADORARIA que todos os licenciados tivessem no final dos seus cursos. Tirar um curso não é só para fazer estatística, nem farol! :)
Até posso vir a desiludir-me com as minhas opções de agora (embora ache difícil, tenho de assumir a probabilidade). Agora sei bem o que não quero. E isso é importante.
[fui muito lamechas??] ;-)
Opiniões, discussão e Farmácia
Basta ter uma conta no gmail.com para se poder juntar ao grupo.
Colaborem! :)
terça-feira, maio 27, 2008
Opiniões II
Ora bem: há uns 2 anos, estava eu no 5º da faculdade, decidi participar nas campanhas de sensibilização para a profissão farmacêutica organizadas pela aefful (aproveitando para volatr de novo à minha escola secundária). Sinceramente, a ideia com que fiquei foi que a geração de então não era muito diferente da "minha" geração na situação de escolher um curso superior. Havia alunos mais interesados que faziam perguntas e outros que gostaram simplesmente porque tiveram menos aulas, mas todos acharam que era um bom curso e bastante diversificado. Alguns deles ficaram surpreendidos com algumas saídas profissionais (e.g. a área de cosmética, tive de ir buscar o clássico exemplo da mayonaise para explicar como se faz um creme!), mas todos elas na altura reclamaram da média elevada para entrar no curso.
A ideia com que fiquei foi que ninguém faz a escolha de um curso superior com uma ideia muito definida. A não ser que tenho um contacto muito directo com a profissão que decorre desse curso superior, a decisão é muito feita por aquilo que se "acha" que é o curso e o que se "acha" do que é a saída profissional. Faço o repto ao boticário: como foi na sua altura? Também havia campanhas nos liceus para sensibilizar os estudantes para a carreira farmacêutica?
Quanto ao tema da imagem do farmacêutico na sociedade, seja qual for a valência na qual trabalhamos, tudo depende de nós próprios. Não é só nas farmácias comunitárias que há maus exemplos: se eu quisesse passaria o dia todo no hospital onde trabalho a carregar na tecla F10, para validar rapidamente as prescrições dos médicos, e inibir-me de fazer intervenções junto do pessoal clínico.
Mas mais uma vez, acho que o problema somos nós próprios: somos nós que temos de "puxar" pela nossa imagem, temos de dar uma imagem de credibilidade à nossa profissão. Deveríamos criar na sociedade em global a consciência de que somos os profissionais do medicamento. Coisa, que na minha opinião deveria ser feita principalmente pela Ordem dos Farmacêuticos, exigindo a todos nós um trabalho de excelência nas nossas actividades diárias.
segunda-feira, maio 26, 2008
Opiniões
[as notícias não páram, e eu tenho tido demasiadas distracções]
Bom, resumindo e concluíndo, o que me traz a este post hoje é exactamente o re-blog deste post aqui.
E aproveito para também neste blog publicar a minha opinião em relação ao que se discute por aqueles lados...
Embora compreenda as preocupações de se realmente informar melhor a população pré-universitária acerca do que é de facto o curso de Ciências Farmacêuticas, eu devo referir dois pontos.
1º penso que a população pré-universitária de hoje está indubitavelmente mais inconsciente das decisões que tem de tomar do que em comparação à minha geração (aqueles que ingressaram à 7 anos num curso universitário). Os jovens pré-univ estão cada vez mais infantilizados. Óbvio que não podemos generalizar, mas podemos constatar isto, partindo de casos como a falta de educação cívica nas escolas secundárias que hoje em dia se verifica. Isto é um ponto importante, na minha opinião, a ser considerado. A maturidade tem um papel preponderante na escolha de um curso. Penso que uma maior informação é necessária, claro. Cada curso tem de saber vender o seu "peixe". Mas perante a imaturidade do aluno e a falta de acompanhamento cívico por parte dos pais, não compreendo como é que esperam que as gerações de hoje consigam vingar com boas escolhas na universidade, se no liceu são autênticas crianças egoístas e embirrentas?
2º Quando me candidatei à universidade, como disse anteriormente, à 7 anos atrás, lembro-me de deparar-me com os cursos de Engenharia Biomédica e/ou equivalentes tanto no IST como na FCUNL. Facilmente se via que as médias de entrada nestes cursos eram inflaccionadas. Isto porque uma percentagem (talvez a maioria) dos alunos que entravam, tinham escolhido em última opção num rol de opções onde Medicina era prevalente.
O mesmo se passou com Ciências Farmacêuticas (CF) não só no meu ano de entrada, como em anos anteriores. Talvez tenha diminuído ao longo dos anos, pois criaram-se estes curso que "diluem" as entradas de alunos em CF. Esta opinião, de que uma larga % de alunos caloiros em CF na realidade até queriam medicina, já foi aqui referida.
A minha questão é: Portugal tem uma liberalização, quanto a mim disparatada, em termos de criação de cursos universitários. São cursos que não têm qualquer reflexo no mercado de emprego! Um país tão pequeno, não só em tamanho territorial, como em visões futuras de criar oportunidades, nunca percebi como é que consegue ter tanto curso! No final, geram-se mais desempregados. OU pior, pessoas que não têm oportunidade de arranjar emprgo na sua área, pois as áreas não são assim tão versáteis, e vêem-se obrigados a acomodar-se a empregos totalmente diferentes da sua área de formação.
Apesar de tudo, em ciências farmacêuticas (ou farmácia, falando de modo mais geral), os licenciados não têm esta preocupação. Até hoje sabemos sempre que havemos de ter oportunidade de emprego nesta vasta área de farmácia.
[Ou então não! o meu caso e o de muitos que como eu não querem trabalhar nos empregos de comunitária, indústria, hospitalar ou análises, mas sim enveredar por um ramo mais científico, vêem-se preocupados com o seu futuro. Pelo menos eu estou.]
A auto-análise que os colegas que inciaram este debate fizeram é sinal de que se tem consciência desta "cogumelização" de cursos que não encaixam na realidade Portuguesa de trabalho.
Na minha opinião, e julgando por outros cursos que existiram e já deixaram de existir, acredito piamente que estas ciências analíticas e afins vão acabar por fechar. É triste afirmar isto, mas é a passividade que se observa e sempre se observou ao longo dos anos.
Outras duas coisas que queria referir muito rapidamente.
Primeiro, sinto que o comodismo [assunto aqui brevemente explorado em comments anteriores] é um "malefício" que não só depende do carácter do trabalhador como obviamente e em maior força depende do tipo de emprego. Farmácia comunitária ainda é "easy money". Cá em Portugal até nem acho que seja assim tão "easy", pois vejo os meus colegas a esfolarem-se em horários de serviços permanentes em dias úteis, fins-de-semana ou feriados, tendo como recompensa o pagamento de um salário por si bastante bom acompanhado do pagamento de horas extraordinárias. Há países na Europa onde o trabalho é das 9-5 e por hora ganha-se mais. Mas claro, estamos a falar de Portugal - uma realidade económica bem diferente.
Bom, mas comparativamente com a entrada na indústria, começar como 1º emprego em comunitária, é óbvio que o dinheiro a entrar na maior parte dos casos pode provocar algum letargismo. Mas, vejamos: estes horários extenuantes que se fazem para ganhar "bem", eventualmente cansam. A indústria oferece uma melhor alternativa, um emprego talvez mais descansado [as generalizações são inevitáveis e possivelmente incorrectas!]. Daí 7 cães a um osso quando os recém-licenciados querem ingressar na indústria à procura de um emprego menos cansativo, mas onde infelizmente na maioria das vezes lhes apresentam estágios e empregos temporários.
Resumindo, o que eu quero dizer é que comodismo estabelece-se em qualquer profissão. Basta a pessoa sentir-se pouco inclinada a mudar.
A opinião do post, fala da divulgação da actividade científica do farmacêutico.
Lembro-me de assistir a uma aula de micologia em que a professora praticamente implorava que nós, após conclusão do curso, dessemos uma olhadela ao mercado de trabalho científico. O problema a que esta professora tão preocupada nos chamava a atenção era que os lugares de ciência estavam a ser ocupados por licenciados em bioquímica, química ou biologia. Achava ela um escândalo.
Eu compreendi que, o escândalo é devido a duas simples causas: os farmacêuticos ao licenciarem-se, acham mais aliciante exercer um dos ramos da sua profissão pelo mercado do trabalho fora, do que continuar a investir no ramo académico, invariavelmente patrocinado pelo Estado [e portanto mal-pago, comparativamente com outras possibilidades de emprego]; os bioquímicos, químicos e biólogos, formam-se em maior número do que aquilo que o mercado de trabalho em Portugal consegue absorver, logo não é anormal que se expandem para áreas que não sejam directamente "suas".
O problema é que a via académica geralmente encerra-se em si mesma. Há um processo de autofagia. O aluno que se propõe a doutoramento é escolhido e após 4 anos de trabalho não tem qualquer prospecto do seu futuro. Não se formam cientistas para andarem a acumular títulos académicos (pós-doc, pós-pós-doc...). Quantas empresas cá em portugal empregam doutorados?
Para quê doutoramo-nos num ramo de investigação científica se não temos hipóteses de desenvolver as nossas capacidades liderando uma equipa de investigação, excepto em lugares proporcionados pelo Estado (institutos de investigação como o ITQB, por ex). A minha preocupação é esta. As causas são muitas: falta de empenho do Estado em incentivar financeiramente a prática da investigação científica em farmácia; falta da cultura de mecenato neste país; poucas ligações de indústrias com verdadeiras sedes de I&D por cá, e que possam estabelecer parcerias com as universidades.
Não digo que isto seja totalmente impossível de acontecer em Portugal - mas afirmo que, na nossa sociedade, estamos muito àquem daquilo que se passa na Europa (e só falo da Europa, pois estamos na UE!).
Desejo bom debate de ideias a todos! :) espero ansiosamente por novos comentários.
o meu assunto preferido é o do meu penúltimo parágrafo. cada um puxa a brasa à sua sardinha... ;)
domingo, maio 11, 2008
Finanças farmacêuticas
Entre as variadíssimas reuniões que temos de ter com monitores de ensaios e médicos (principalmente no início dos ensaios), boa parte do nosso trabalho centra-se na manutenção do dossier da farmácia, que centraliza muita informação.
Ora, entre os documentos que devem constituir um dossier de farmácia de um ensaio clínico deve estar o acordo financeiro!
Este acordo financeiro estabelece as contrapartidas financeiras entre o promotor e a instituição que acolhe o ensaio:
- quanto é que se paga pelos exames efectuados;
- quanto é que o hospital recebe pelos custos administrativos;
- quanto é que paga de honorários à equipa de investigação.
Acontece que a parte farmacêutica da equipa de investigação é sistematicamente encapotada nestes acordos, pelo que dinheiro nenhum chega à farmácia. Mesmo que haja referência aos farmacêuticos participantes nos ensaios, geralmente a sua parte nunca é individualizada nos acordos e é deduzida do "bolo" (chamemos-lhe assim) que é entregue ao hospital.
E nós até temos um papel importante, somos nós que controlamos todo o circuito do medicamento experimental, desde a recepção até à dispensa ao doente.
Concluindo: trabalhamos para empresas privadas e não recebemos propriamente nada por este trabalho adicional. Para quando a remuneração devida?
segunda-feira, maio 05, 2008
Pet Project
Mas, por momentos pensei: "onde será que vão instalar este projecto?"
Bom, e parece que a minha pergunta tinha razão de ser e também uma resposta. Se bem que a resposta só virá no final do mês de Maio, já há candidatos: Polónia, Espanha, Hungria e uma parceria Áustria-Eslováquia.
Para este projecto, pet project do Presidente da Comissão Europeia, está previsto um investimento de cerca de 309 milhões € até 2013 pela própria UE, sendo que o restante investimento é privado e rondará os 2,9 mil milhões €.
A ideia principal é criar um grande avanço europeu na investigação médica, na área da saúde, com vista no desenvolvimento de maior número de novos medicamentos, melhorando os existentes, investindo em novas tecnologias e sobretudo fazer tudo isto de um modo mais rápido e eficiente. Pois é necessário "apanhar" o avanço que os países como os USA, a Índia, a China e o Japão já levam nesta área.
Interessante no artigo da FT é saber por que razões é que os respectivos países candidatos acham que devem ser escolhidos.
Portugal está fora da corrida. Porquê? Aceito sugestões.
domingo, abril 20, 2008
Degenerescência macular relacionada com a idade
Assim em palavras muito rápidas: o que é a DMI? Consiste numa perda de visão provocada pela degenerescência da região da retina chamada mácula. Essa degenerescência é muitas vezes provocada pela proliferação de vasos sanguíneos e deposição de colesterol (isto na versão húmida), que ao alterar a estrutura da retina levam à deterioração da visão. En savoir plus, cliquez ici
Ora, este novo medicamento de seu nome ranimizumab (cujo nome comercial é o Lucentis®) foi precisamente aprovado para esta patologia no ano passado, por procedimento centralizado a nível da EMEA. Até agora, o que se utilizava era o bevacizumab (Avastin®): ambos são fármacos anti-VEGF, o primeiro a fracção Fab de um anticorpo monoclonal, enquanto que o bevacizumab é um Ac monoclonal completo. São efectuadas injecções intravítreas de 50μL.
Interessantes são os seguintes factos: o bevacizumab não tem indicação para este tratamento (utilização off-label), mas o seu custo é virtualmente 0€, visto que se utiliza as sobras das ampolas abertas para tratamentos indicados (algumas neoplasias). Já o ranimizumab, que tem apenas esta indicação aprovada em RCM, cada ampola de 230 μL custa cerca de 2000€...
Fica-se aqui com um dilema: usar um fármaco sem indicação aprovada mas que não custa nada, ou usa-se um outro que é indicado, mas que é extremamente caro?
segunda-feira, abril 14, 2008
Tempo de Dados e Informação
Podem ler aqui o que se passa com este programa. [um post que explicita suficientemente bem o que se passa com este novo programa de recolha de dados]
As farmácias não ficam com a informação, pois é enviada por modem à base de dados, através da ligação de internet que a Consiste ® fornece às farmácias (farmalink ®). O retorno às farmácias por estarem a fornecer os dados é feito na forma de desconto no pagamento mensal dessa ligação de internet. Claro que o desconto só é dado se a farmácia atingir um determinado nível de informação dada, ou seja, se as leituras dos códigos de barras (nº de receita, local de prescrição e código do médico prescritor) atingirem o nível escolhido (cerca de 85%, se não me engano).
[Isto são informações completamente livres de consulta, pois a informação foi enviada para a farmácia. Como empregada e vendo-me forçada a ver o pedido por estes código no acto de facturação de uma receita, penso que a informação é mais que obrigatória para esclarecer todos os intervenientes no processo]
Voltando ao que me trouxe a este post, a utente pediu-me para não "ler" os códigos pedidos.
Apesar de saber porque me pediram para passar a inserir esses códigos, sempre me mostrei indignada e perguntei: a quem é que vai favorecer o fornecimento destes dados?
[lendo os comentários ao post que linkei ali atrás, do SaúdeSA, podemos tirar algumas elacções]
Achei por bem aceitar o pedido da utente e não li os códigos. Essencialmente porque vai ao encontro de todas as dúvidas que eu tenho acerca deste sistema de recolha de dados.
Parece-me que quem sai a ganhar é óbviamente a indústria farmacêutica, as big pharma. Estudos de mercado que saem directamente da fonte de vendas dos seus produtos - as farmácias. Penso que este projecto é somente um enhancement de projectos de recolha deste tipo de dados já existentes (não esqueçamos a principal razão de existência da IMS, que é uma multi-nacional!!)
A associação com o médico prescritor (em termos de especialidade, claro está) penso que não seja de perseguição e controlo ético da prescrição. É mais o controlo do marketing - as vendas andam a correr bem às indústrias?
Os farmacêuticos de comunitária querem-se bons vendedores - treinados no conceito de venda, é o ganha-pão e deverão ser ambiciosos por florescer nessa capacidade. Mas este programa nada se relaciona com o que se passa com a influência do farmacêutico na venda dos produtos prescritos. Assim, acredito que a única coisa com que a farmácia saia a ganhar seja mesmo o desconto de x € na conta de internet.
Talvez os médicos comecem a preocupar-se que as big pharma andem a investigar através deste programa, se eles também serão bons vendedores.
Até lá, não leio códigos até conseguir perceber melhor sobre o sistema. E vou ficar contente que os utentes se inteirem e interessem sobre estes assuntos.
quinta-feira, abril 10, 2008
A política de saúde II
O Ministério da Saúde já se reuniu com ADSE e a ANF para que houvesse novo acordo a decidir o que fazer com a lacuna de comparticipação aos sub-sistemas nos dispositivos médicos para a diabetes (tiras reactivas, lancetas e agulhas). Voltou-se atrás, o organismo que se riscou do mapa a dia 1 de Abril, uma semana depois voltou ao mundo dos organismos vivos! É válido para muitos sub-sistemas mas não todos (os restantes têm de esperar mais um bocadinho...).
A portaria que altera os preços destes dispositivos médicos encontra-se aqui.
Claro que até haver esta nova "re-actualização" do protocolo que determina as comparticipações, os utentes dos sub-sistemas ficaram uma semana sem perceber muito bem o que lhes passou por cima! Inadmissível! Pois parece que brincam com as condições de saúde e necessidades das pessoas.
sexta-feira, abril 04, 2008
A política de Saúde
No dia 27 de Março deste ano foi estabelecido que a percentagem que os utentes pagam dos dispositivos médicos (tiras teste e lancetas) fosse reduzida para 12.5%, mantendo o Estado a sua comparticipação a 85%. [Indústria e grossista diminuem as suas margens de lucro sobre o PVP]. Os preços destes dispositivos vão baixar mesmo: vai haver atribuição de novo código de produto, correspondente a novos preços e consequentemente a aplicação de nova entidade de facturação para estes dispositivos médicos de protocolo.
Quem vai beneficiar destas alterações de preços são somente os utentes do SNS, pois os diabéticos utentes de outros sub-sistemas (como ADSE, SAMS, etc etc) deixam de usufruir directamente deste desconto. A estes utentes o Estado espera que se resolva o problema directamente entre as farmácias e os sub-sistemas que lhes comparticipam os medicamentos.
A política é obviamente de contenção de gastos em Saúde: os utentes diabéticos dos sub-sistemas tinham os dispositivos médicos pagos pelo SNS também. Acabou-se isso, tão simples quanto isso. E agora?
Agora das duas uma, ou se estabelecem protocolos (e rapidamente) entre as farmácias e esses sub-sistemas de saúde, ou então até lá estes utentes têm de pagar caixas de tiras teste e lancetas do "não protocolo" que têm preços acima daqueles praticados pelo "protocolo". Uma caixa de 25 tiras pode ficar por cerca de 35 euros. Diabéticos que precisem de fazer controlo 3 a 4 vezes ao dia, gastam 25 tiras numa semana. É preocupante!
Aqui lê-se que já se rectificou a lei com uma portaria. Mas ao que parece, ninguém [ANF] sabe do que se passa. ("qual papel?" "o papel!")
Isto parece o jogo da batata-quente!! Ninguém sabe o que se passa. Somos informados em cima da hora, temos de explicar às pessoas o que se passa e fazer-lhes entender que não podemos fazer mais nada senão cobrar-lhes o PVP dos dispositivos médicos que precisam. É desconcertante.
quarta-feira, abril 02, 2008
Mentiras? Quem nos dera!
Vi aqui este comentário ao sucedido e expus a minha opinião quase de seguida.
Reforço aqui o meu ponto de vista em relação aos suplementos alimentares: muito marketing, pouca informação antes da comercialização, pouco controlo.
quarta-feira, março 12, 2008
Mea Culpa
1 - Há dias uma tia minha dirigiu-se a uma farmácia para comprar alguma coisa para "dormir melhor". Alguns acontecimentos familiares levaram a que uma certa instabilidade onírica se instalasse na minha tia e que melhor do que se aconselhar na farmácia do bairro.
Consequência: saiu da farmácia com uma embalagem de mexazolam.
Ora, nós que nos queixamos diariamente de ter idosos ao balcão para comprar uma caixita de lorazepam ou bromazepam, ou seja lá o que for sem receita("Agora como é que vou dormir??"; "O dinheiro que vou gastar a ir buscar a receita ao médico não compensa, comprar sem receita é mais barato e eu preciso" et cetera...), não convém dispensar sem receita a uma utente que nunca tomou/precisou.
2 - Uma outra tia minha (tantas tias...) foi há uns tempos aconselhar-se com um farmacêutico por causa de uma infecção cutânea que a filha tinha. O farmacêutico diligente apresentou-lhe logo a solução: flucloxacilina, que aquilo passaria num instante. E aqui tive de dar os parabéns pela resposta da minha tia:
"Não obrigado, eu não vou dar um antibiótico à minha filha sem o aconselhamento de um médico...".
Mais tarde acabou por ir à mesma farmácia com uma receita exactamente com flucloxacilina, sentindo-se "envergonhada" por recusar inicialmente o referido medicamento.
Mas também, quem nunca fez nada errado que atire a primeira pedra...
segunda-feira, março 10, 2008
Opinião
É uma opinião a espalhar.
[eu já imprimi isto para dar a conhecer aos colegas lá na farmácia]
Para que funcione
A conclusão é que não há avaliações suficientes para determinar o quanto o programa está a ter resultados. Além de que este tipo de seguimento permitiria que pudessem ocorrer adaptações desses programas e investimentos, para que se obtivessem melhores resultados.
A questão é que num desenrolar de custos, pouco ou nada se deixa para cobrir as despesas necessárias e inerentes a uma avaliação bem feita de qualquer programa de saúde pública implementado por organizações como as que referi acima.
O artigo encontra-se aqui. Recomendo vivamente a sua leitura. Até porque, aquilo que mais se pretende com esta longa análise é chamar a atenção para este ponto que muitas vezes se revela crítico para o sucesso dos projectos de saúde implementados em países Africanos, por exemplo.
quarta-feira, março 05, 2008
Professor da FFUL é novo Director do Laboratório de Polícia Científica da PJ
É o professor Álvaro Lopes, que os alunos da FFUL conhecem por altura de quando a Toxicologia se torna assunto a estudar, mais ou menos pelo fim do curso (agora já nem sei em que altura é, com as alterações de Bolonha).
Como ex-aluna dele, fiquei muito contente e fez-me reflectir e lembrar-me do gosto que sempre demonstrou nas histórias que partilhava connosco. Desde as suas vivências passando pela própria matéria da disciplina em questão. Lembro-me de nos perguntar se gostávamos do CSI! Mas as suas histórias eram de facto fascinantes.
Parabéns ao professor! Uma mente de um cientista num lugar importante como este. É de louvar e de desejar muita sorte.
terça-feira, fevereiro 26, 2008
Afinal... não faz nada?
Afinal tomar Prozac é o mesmo que tomar placebo?
A ler, também aqui.
Pelos vistos, só nos casos de depressão severa é que se verifica uma diferença estatisticamente significativa comparando os efeitos dos antidepressivos com os do placebo.
domingo, fevereiro 24, 2008
Farmácias Portuguesas
.... contra o eixo-do-mal! (eles andem aí e andem aos pares!)
É o que parece esta publicidade descabida da "nova imagem" das farmácias em Portugal (associadas à ANF, claro está) que querem transmitir à população portuguesa.
Nem quero discutir muito o aspecto estético das novas batas, que põe os farmacêuticos de oficina a usar uma imagem de marca impigida por mais um negócio da ANF e que os põe vestidos todos de igual, tal e qual como a farda que se usa num hipermercado qualquer pelo país fora. E não é só aos farmacêuticos, porque todos aqueles que trabalham numa farmácia portuguesa, seja técnico ou praticante, também deverão ter direito de usar estas novas batas!
É engraçado reparar que o símbolo da ANF não aparece uma única vez neste anúncio. Faz sentido: toda a mensagem que se quer passar deverá ser válida para qualquer farmácia (um serviço de qualidade, um atendimento exemplar, um conselho adequado a cada pergunta, um apoio importante e útil para cada utente). No entanto, é estranho pensar de que outro modo as farmácias portuguesas teriam a possibilidade de se juntar e criar todo este anúncio às qualidades dos seus serviços.
Cada farmácia tem o seu proprietário, a sua gestão, a sua imagem em termos de loja, e obviamente, a sua clientela. São todas diferentes.
O que este anúncio reflecte, é uma chamada de atenção à população para que recorram às farmácias "centrais" [típicas do centro da localidade, mais próximas do utente...] em detrimento das parafarmácias. Unidas, contra os "belmiros" deste país?!
Não posso crer que a única coisa que se possa fazer para publicitar a qualidade do serviço farmacêutico especializado, seja mudar a imagem das farmácias. Todos com o mesmo uniforme, é como trabalhar para a mesma corporação. Todos com o anúncio colado na janela a dizer "farmácia portuguesa" é uma redundância e retórica - afinal não estamos em Portugal? não será óbvio que será uma farmácia portuguesa, estando em Portugal?!
Mas tudo isto é simplesmente um pré-anúncio. Pois não tarda muito para se publicitar o cartão de descontos... nas "farmácias portuguesas".
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Consumismo
Uma marca cosmética bastante conhecida, que faz parte de um grupo francês igualmente bastante conhecido, tem por estes dias uns packs de cremes das suas várias gamas, normalmente contendo dois ou três produtos, em que oferecem ainda um relógio. A ideia do relógio é bem pensada, pois em termos de aspecto, este é muito similar àqueles relógios que têm a possibilidade de se trocar as diferentes braceletes. Chama muito a atenção.
Mal os vi, pensei "isto vai dar barraca!"
Dito e comprovado. Em dois dias que os packs estão à vista e à disposição de todos, já se fizeram umas 10 vezes a mesma pergunta ao balcão: "olhe lá, não dá para trocar os relógios?" Isto porque, a cada gama de produto corresponde um relógio de cor diferente [branco, azul, rosa, vermelho e preto]. Muitas vezes a pergunta ainda foi "que produtos é que têm lá dentro da caixa? [depois da resposta] Ah, deixe lá, o relógio é giro, mas eu não uso nada disso! Não dá para trocar a cor do relógio?"
Rídiculo. Aqui só se prova que as pessoas compram as coisas pelos brindes. Talvez não seja novidade nenhuma para ninguém. Mas eu fico muito incomodada, desculpem.
É a minha consciência que o dita.
domingo, fevereiro 03, 2008
Ainda a lei anti-tabaco
Ora, desde o aparecimento da lei anti-tabaco (e mesmo antes de ela ser implementada), já MST escrevia sobre o assunto de modo muito crítico. E hoje a crónica semanal de MST vinha cheia de pérolas:
Um mês depois da entrada em vigor da lei totalitária contra os fumadores, o balanço político é totalmente favorável aos fumadores: aos olhos de qualquer pessoa de boa-fé, tornou-se evidente que a lei não visou apenas proteger os não-fumadores, mas também castigar os fumadores, tornar-lhes a existência diária infernal
Os fumadores perderam esta batalha na lei, mas ganharam-na politicamente. Há uma revolta geral, cívica e política, contra a lei, a que se juntam muitos não-fumadores que entenderam que o que está em causa é mais, muito mais, do que o direito a um vício: é o direito inalienável de cada um decidir sobre a sua saúde e os seus hábitos de vida, se isso só o implica a ele.
Vivemos um terrorismo sanitário, sabiamente inspirado pela indústria farmacêutica, que nos bombardeia diariamente com ameaças sobre a nossa saúde e a 'oferecer' os correspondentes remédios contra o tabaco, o colesterol, a tensão alta, a obesidade, ou os efeitos nocivos do sol.
É verdade, retirei as frases que me pareceram mais ilustrativas deste artigo com o meu próprio critério: aquilo que faz menos sentido.
Quando é que esta gente se convence que esta lei só veio ajudar a todos??
Bom, ao menos as "novas" PIDE não fazem uma coisa: censurar estes artigos e estas opiniões!
sábado, fevereiro 02, 2008
Confusões ao balcão
Longe disso.
Mas são calinadas na mesma, de facto. Não vêm é de utentes mal-informados ou com ideias confusas sobre aquilo que pedem ao balcão. São talvez calinadas mais graves e preocupantes.
#1 - A um colega da farmácia veio parar-lhe às mãos uma receita que, de entre outros medicamentos, foi prescrito FuradantinaMC com a seguinte posologia: fazer em SOS.
Aqui sinceramente não percebo: é para fazer, caso tiver infecção urinária, e seguir a posologia recomendada?; ou é para ter em casa, e se sentir ardor, faz um e depois pára?
Eu quero acreditar que é para a pessoa começar a fazer só se tiver sinais mesmo de infecção instalada, segundo a posologia recomendada pelo médico. Mas fiquei com a dúvida e o meu colega também!
#2 - Já não é a primeira vez que me aparecem receitas de médicos pediatras, acabadinhas de vir do hospital, que apresentam antibióticos em suspensão e a seguinte posologia: conforme peso e idade.
Para ser sincera, não me custa nada fazer contas e se calhar ao fazê-las à frente dos pais e com o seu entendimento, os pais confiem mais no tratamento. Mas o que me faz mais confusão é ter confirmado com os pais da criança, invariavelmente, que a consulta foi muito rápida e sem grandes explicações acerca do tratamento. É que é uma coisa eles escreverem na receita este tipo de coisa, mas outra ainda mais grave é haver falta de informação verbal.
#3 - Ao mesmo colega foi-lhe apresentada uma receita com antibiótico e anti-inflamatório que ele prontamente aviou. Aquando da escrita da posologia nas caixas e sua explicação ao utente, este interrompe para dizer: "espere lá, o nome é meu, o médico é meu, mas eu não pedi nada disto! a minha receita deveria ser vastarel [e um medicamento para a HTA]!"
Isto são coisas importantes: as pessoas não têm tempo para ir ao médico para pedir os seus medicamentos; os médicos muitas vezes vêem-se obrigados a facilitar essa situação sem marcar consulta; resultado - confusões destas!
#4 - Com a modernice das receitas electrónicas, basta o médico inserir mal o número de utente para que venha outro nome de utente, embora lhe prescreva os medicamentos correctos. Já me aconteceu umas duas ou três vezes, e o assunto acaba sempre na necessidade da pessoa trazer nova receita.
A modernice trouxe vantagens, mas algumas dores de cabeça. Mas errar, de facto, é humano. É uma chatice quando temos de voltar atrás para resolver um erro de falta de atenção.
Certamente não é a primeira vez que aconteceram estes casos. O que é triste: significa que já estou à espera que aconteçam mais vezes. O que por sua vez mostra que o que está mal, tarde ou nunca se endireita...